Cada jogo apresenta regras que determinam como será jogado e definem o ambiente do jogo, o seu universo. Este ambiente fictício, isolado da realidade, é denominado círculo mágico. É o espaço em que o jogo acontece, onde ocorre a interação do jogador. E o círculo é mágico porque desaparece quando o jogo termina.

O jogador vive a experiência do jogo nesse círculo mágico como se a realidade exterior não estivesse presente. Porém, às vezes, o jogo acaba se mostrando ciente de seu funcionamento e da realidade fora de seu mundinho, geralmente questionando as próprias convenções, podendo causar um desconforto e estranheza no jogador. É quando ocorre o rompimento do círculo mágico.

Essa ruptura pode prejudicar uma experiência imersiva, mas também tem potencial para proporcionar experiências novas e diversificadas ao jogador, juntamente a novas formas de interação e jogabilidade.

Alguns jogos digitais têm explorado essas possibilidades de quebra do círculo mágico de forma muito criativa. Nathália dos Santos, em seu trabalho de conclusão de curso, analisou alguns casos, buscando conhecer melhor as estratégias utilizadas pelos jogos digitais para romper esse mundo isolado do círculo mágico.

AS ESTRATÉGIAS DE RUPTURA DO CÍRCULO MÁGICO NOS JOGOS DIGITAIS: ESTUDO DE CASO

Nathália dos Santos

Orientação: Prof. Filipe Cargnin

O estudo foi orientado pelo professor Filipe Cargnin e, além de uma pesquisa bibliográfica, investigou Undertale e Doki Doki Literature Club, dois jogos que buscam esse rompimento de forma sistemática.

A partir do estudo feito foi possível perceber que:

A quebra do círculo mágico de forma sistemática é pouco utilizada, pois precisa fazer sentido para a narrativa. No entanto, formas sutis, empregadas geralmente com propósitos cômicos, são bastantes utilizadas desde jogos mais antigos.

Nathália dos Santos

O rompimento do círculo mágico pode acontecer de diferentes maneiras, algumas bem sutis, outras impactantes e surpreendentes. Nathália descreve várias estratégias que foram identificadas pelos autores pesquisados e outras que foram investigadas por ela nos jogos analisados.

Para romper o círculo mágico os jogos podem, por exemplo, influenciar o meio externo ao jogo, fazer perceber que há um interator vivenciando uma experiência por trás da tela, explicitando os elementos construtivos e os métodos usados no jogo ou quebrando convenções usadas em jogos do mesmo gênero.

Veja uma amostra de como essas estratégias foram exploradas nos dois jogos analisados pelo estudo.

Undertale

O jogo Undertale é um role-playing game (RPG), um tipo de jogo em que os participantes interpretam personagens e definem o andamento do jogo de forma colaborativa. Em Undertale, a narrativa conta a história de uma criança que caiu no subsolo, o Underground, local onde os monstros foram presos pelos humanos séculos atrás. Cada participante tem sua vez para realizar uma ação na batalha. O jogador encontra diversas criaturas e enfrenta diversas batalhas enquanto tenta sair do lugar.

Estratégia: SUBVERSÃO DAS CONVENÇÕES DE GÊNERO

Cada tipo de jogo tem suas fórmulas e variações delas e se inserem em uma cultura. Ao quebrar essas convenções pode-se quebrar também o círculo mágico.

Diferentemente de outros RPGs tradicionais, em Undertale não há a necessidade de matar os oponentes, podendo resolver batalhas por meio de conversas. Essas batalhas funcionam como um minigame, semelhante aos jogos de plataforma: em sua interface, há um coração (a alma do protagonista) dentro de um quadrado. Durante a batalha, deve-se desviar o coração dos ataques que variam de acordo com cada adversário.

https:http://betweenlifeandgames.com/reviews/undertale/

Estratégia: EXPLICITAÇÃO DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS

Em Undertale, as personagens do jogo demonstram que sabem da existência e funcionamento da interface que o jogador utiliza e interferem nela.

No início do jogo, a personagem Flowey apresenta os componentes da interface do jogo, convidando o jogador a manipular os elementos da tela como um pequeno tutorial. Porém, ao coletar os elementos da tela, o jogador se fere, descobrindo que o tutorial na verdade é uma armadilha de Flowey para roubar sua alma.

Em outro momento, o personagem Asgore também se mostra ciente da interface do jogo e de como ela funciona, quando destrói o elemento Mercy (piedade) da interface, obrigando o jogador a batalhar e causar dano nele.

Estratégia: INTERFERÊNCIA NO CONTROLE DO JOGADOR

Nessa estratégia para romper o círculo mágico, as personagens tentam impossibilitar ou limitar a interação do jogador.

Em Undertale, o cientista Alphys telefona para o protagonista muitas vezes, o impedindo de realizar ações, por exemplo, quando o jogador precisa desativar canhões de laser pressionando uma série de três botões. No entanto, ao se aproximar do último botão, Alphys liga para o protagonista, impossibilitando-o de completar a tarefa.

Doki Doki Literature Club!

É um tipo de jogo com foco na história. Geralmente esses jogos são um simulador de namoro em que o jogador acompanha uma narrativa por meio de textos, imagens e músicas, e em determinados momentos precisa fazer escolhas que decidirão qual caminho o protagonista deve seguir na história. Esse tipo de jogo é denominado visual novel (romance visual), muito popular no Japão.

Em Doki Doki, o protagonista é um aluno do ensino médio que se une ao clube de literatura da escola de sua melhor amiga, Sayuri. Lá ele conhece as outras integrantes, Natsuki, Yuri e Monika, a presidente do clube. O objetivo do jogador é conquistar uma delas, exceto Monika, que não está disponível para se relacionar romanticamente. Ao longo do jogo, a narrativa passa de algo leve e inocente para assuntos demasiadamente pesados, tanto que não é recomendado para crianças ou pessoas facilmente perturbáveis.

Estratégia: MODIFICAÇÕES NO PRÓPRIO SISTEMA DO JOGO

Neste exemplo as personagens alteram o próprio sistema do jogo, deletando ou modificando arquivos, podendo provocar falhas e até o encerramento do jogo.

Em Doki Doki Literature Club!, conforme as escolhas do jogador e os avanços na narrativa, arquivos com textos e imagens são adicionados na pasta do jogo. Eles complementam a experiência e ajudam na compreensão dos eventos do jogo.  Porém, em determinado momento do jogo começam a aparecer várias falhas e o jogo se encerra.

Ao retornar para o menu inicial, surgem elementos distorcidos onde deveria estar a imagem de uma personagem, e não somente no menu, mas em todo o resto do jogo em que a garota aparecia, como se tivesse sido apagada. Em seguida o jogo reinicia, ignorando completamente a existência da garota.

Percebe-se então que Monika é quem está alterando o jogo, aparecendo na frente de diálogos, interrompendo cenas e outras personagens, que tentam alertar o protagonista. Monika deleta as demais personagens, criando um universo onde só existem ela e o jogador, e conta que acessou a pasta do jogador para deletar os arquivos.

Estratégia: CIÊNCIA DE QUE HÁ UM MUNDO ALÉM DA TELA

Nessa estratégia as personagens do jogo mostram que sabem que existe um mundo além da tela.

No fim de Doki Doki Literatura Club!, Monika prende o jogador em um universo que existe apenas ela e afirma estar ciente de que aquilo é um jogo e que entende seu funcionamento. Diz não querer quebrar o círculo mágico e dirige-se diretamente ao jogador contando estar apaixonada por ele.

De acordo com Nathália, o jogo Undertale, com suas batalhas minigame no próprio jogo, controle de personagens sobre o sistema e as ligações de Alphys, mesmo que atrapalhem a imersão do jogador, tornam-se parte do jogo, não deixando de fazer sentido na narrativa. E em Doki Doki Literature Club!, quando Monika passa a ter o controle, a narrativa se distancia de seu tom original, explicitando a ruptura do círculo mágico. Mas o jogo usa essas estratégias para surpreender e quebrar a expectativa do jogador, explorando o terror psicológico para envolvê-lo ainda mais na história.

Os jogos digitais podem ser muito complexos e podem ser mais do que entretenimento, envolvendo arte e conteúdo significativo também para a vida fora do círculo mágico. Promover essas brincadeiras de imersão e saída do círculo mágico é uma forma potente de envolver o jogador e de provocar a ampliação de sua percepção, mas exige do projetista muito cuidado e estratégias criativas para não prejudicar a experiência imersiva, mas ao contrário, deixar o jogador ainda mais imerso na narrativa do jogo.