Geralmente, quando falamos em acessibilidade, pensamos em pessoas com deficiência física, intelectual, cegos e surdos. Mas a acessibilidade nos espaços culturais se refere a um público muito mais amplo, que hoje não frequenta os museus por diferentes motivos. 

Pesquisa realizada em 12 capitais brasileiras, em 2017, mostra que o público que geralmente acessa os espaços museológicos são jovens, com alta escolaridade e alta renda (LEIVA; MEIRELLES, 2018), ou seja, esses espaços têm acolhido principalmente os visitantes mais privilegiados da sociedade.

Nesta edição da reVISTA, nossa convidada muito especial é uma equipe da Pinacoteca do Estado de São Paulo, que vem desenvolvendo iniciativas significativas para promover a acessibilidade e ampliar o público dos museus. 

Gabriela Aidar, coordenadora dos Programas Educativos Inclusivos do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, observa, em suas publicações e palestras, a importância de reconhecer diferentes âmbitos de acessibilidade, como a acessibilidade financeira, a cultural, a intelectual ou comunicacional, a atitudinal e a sensorial.

Não basta que o museu tenha rampas, elevadores e banheiros acessíveis se a cidade não possibilita que os cadeirantes cheguem ao museu. A mobilidade na cidade precisa ser adequada para que os acessos possam ser feitos com autonomia.

A inclusão das pessoas nos espaços culturais, como os museus de arte, deve considerar também as barreiras simbólicas. A acessibilidade cultural é um desafio porque muitas pessoas não se sentem bem-vindas ou pertencentes a esses espaços. Muitas vezes, também faltam informações ou recursos comunicacionais para compreender o que está sendo exposto.

Aidar identifica problemas de acessibilidade intelectual ou comunicacional, pois o uso de uma linguagem demasiadamente especializada para informar a respeito das obras e dos próprios espaços pode fazer muitas pessoas não se sentirem à vontade nos museus. É importante desenvolver uma relação pessoal com a arte com a qual seja possível observar a arte atual, admirar, indagar, fazer relações com outros elementos, avaliar se gosta ou não. Esse é um dos objetivos da educação artísticas nos currículos escolares, nem sempre plenamente atingidos. Mas a ideia de arte é construída ao longo das experimentações e das descobertas sobre produções artísticas, contextos das obras, temas e obras relacionadas e outras discussões. Todos temos em nossas vivências obras que consideram maravilhosas, artistas que admiram, ideias e opiniões sobre os significados dessas criações. Em nossa ampla diversidade, todos temos determinada vivência que consideramos uma experiência de arte, e sabemos o que isso é.

Então, podemos perceber que a falta de representatividade é um dos problemas dos espaços institucionais da arte para grande parte da população.

Atualmente, as curadorias das exposições de arte têm buscado valorizar a diversidade, mais uma forma de promover a acessibilidade. Outra estratégia considerada inclusiva é ter entre os profissionais que atuam nos museus pessoas que representem maior diversidade, como profissionais surdos, cadeirantes, de diferentes gêneros, por exemplo, e que essas pessoas possam contribuir para a identificação das dificuldades enfrentadas pelos visitantes e influenciar as formas de facilitar o acesso.

Gabriela Aidar destaca também a importância dos aspectos atitudinais, fazer as pessoas se sentirem acolhidas no museu é fundamental. 

A formação de todos que atuam nos museus é relevante para conhecer tanto os trabalhos expostos como as percepções, as necessidades e os desejos do público visitante, além dos aspectos técnicos.

A falta de acessibilidade econômica é outro aspecto a ser considerado. As estratégias de entradas gratuitas em alguns dias e patrocínios para o transporte de alguns grupos, como faz a Pinacoteca de São Paulo, podem contribuir para ampliar o público dos museus, principalmente em países como o Brasil. 

Mas promover a inclusão sociocultural é um desafio ainda maior, que tem sido enfrentado pela equipe da Pinacoteca. 

A Ação Educativa Extramuros trabalha para a acessibilidade de grupos em situação de vulnerabilidade social, como pessoas em situação de rua e as pessoas que fazem uso problemático de drogas que frequentam o entorno da Pinacoteca, mas não o museu.

É importante que esses indivíduos tenham acesso qualificado aos bens culturais que a instituição abriga, que possam usufruir e interagir, que se sintam representados e aceitos. O projeto promove visitas ao museu e oferece oficinas de gravura e produção de textos. E são feitas publicações e exposições com obras desenvolvidas por esse novo público. 

E, claro, os aspectos sensoriais, que vão além da visão e da audição, podem ser explorados para promover a acessibilidade e podem contribuir com todos os visitantes, permitindo formas variadas de acesso e fruição das obras.

REFERÊNCIAS

AIDAR, Gabriela. ACESSIBILIDADE EM MUSEUS: IDEIAS E PRÁTICAS EM CONSTRUÇÃO. Revista Docência e Cibercultura, [S.l.], v. 3, n. 2, p. 155-175, set. 2019. ISSN 2594-9004. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/re-doc/article/view/39810>. Acesso em: 12 nov. 2022. doi:https://doi.org/10.12957/redoc.2019.39810.

LEIVA, João; MEIRELLES, Ricardo (org.). Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte. Rio de Janeiro: 17street, 2018.