A professora Janaina Ramos, ao longo de sua pesquisa de Doutorado em design pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), identificou a demanda por materiais didáticos sobre fotografia que adotassem metodologia específica para a aprendizagem dos estudantes surdos. A disciplina de fotografia é oferecida em vários cursos técnicos e superiores como Comunicação Visual, Design, Publicidade, Moda, entre outros, mas não foram encontrados materiais adequados para o estudo dos surdos, nem pesquisas completas acerca da metodologia mais recomendada para o desenvolvimento desse tipo de recurso educacional. Conforme a pesquisadora, os estudantes surdos utilizam no cotidiano referências visuais e filosóficas diferentes das dos ouvintes e necessitam de metodologias específicas de ensino. 

Foi então que nasceu o projeto LIBRAS e Imagens. O projeto incluiu o desenvolvimento de um canal no YouTube, um site e um aplicativo. 

Foi organizado também um minicurso de técnicas e dicas de fotografia, além do conteúdo digital bilíngue que apresenta atividades e orientações pelo aplicativo de mensagens WhatsApp. Inicialmente, de forma experimental, 20 estudantes surdos, de todas as regiões do Brasil, participaram do curso. O experimento mostrou que o material foi eficiente para uma aprendizagem autônoma e 85% dos participantes afirmaram que o interesse por fotografia aumentou após a realização do minicurso. 

Conhecer melhor a técnica é importante, mas, além disso, o estudo da imagem fotográfica pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades artísticas. No que se refere aos estudantes surdos, Janaina recomenda que:

O surdo deve treinar também o seu “olhar artístico” para produzir composições fotográficas diferenciadas, expressar-se artisticamente e posicionar-se diante do mundo, difundindo sua cultura. 

Janaína Ramos

Para desenvolver o olhar fotográfico, ou seja, desenvolver habilidades para fazer fotografias diferenciadas e não apenas retratos, o curso apresenta algumas técnicas fotográficas e oferece dicas interessantes para se produzir o efeito punctum. Este nome foi dado por Barthes, no famoso livro A Câmera Clara, de 1981, e se refere ao aspecto artístico. 

 

“O efeito punctum é identificado naquela imagem que causa um impacto no espectador, ou seja, a fotografia onde você observa e fala “uau”, com a luz perfeita, o enquadramento correto e as técnicas de fotografia que você escolher corretamente.”

 

Janaina Ramos

Veja algumas dicas para alcançar esse efeito e aprecie os exemplos que selecionamos do material disponível no LIBRAS e imagens.

CONTE UMA HISTÓRIA

Pense na fotografia como uma história. Invente uma trama, um fato, crie um contexto e mostre parte dessa história, mas não tudo, deixe a imaginação do observador completar a cena. 

DESENHE COM A LUZ

O termo “fotografar” significa mesmo desenhar com luz. Por isso, é importante se posicionar corretamente em relação à luz para fotografar, porque a luz pode assumir diferentes formas, cores e intensidades. Mas isso depende, evidentemente, do propósito criativo. 

As sombras são tão importantes quanto as áreas iluminadas e definem os contornos. Para fazer uma foto com sombras suaves, escolha o início ou o final do dia ou um dia nublado. Assim, as cores não ficam tão vivas e os objetos não se destacam tanto. Luzes laterais também ajudam a valorizar as texturas. 

Agora, se você quer um contraste marcado, o que chamamos de luz dura, posicione o objeto sob o sol forte ou de frente para o sol. Esse tipo de luz cria sombras escuras e com bordas nítidas, fazendo com que as coisas se destaquem. Nas fotografias em preto e branco, os contrastes bem marcados podem ser especialmente interessantes.

Você pode também explorar a hora mágica, do nascer ou do pôr do sol. São momentos bons para fotografar as silhuetas, explorando o contraluz.

Preste muita atenção nos brilhos e reflexos, eles podem ser muito significativos.

PLANEJE A COMPOSIÇÃO

Um desenho é pensado a partir dos elementos da composição e do espaço disponível. Observe a forma do objeto que será fotografado e o fundo, defina o formato da imagem, se será vertical ou horizontal, planeje a posição de cada elemento da composição, observe as texturas, as cores e as combinações. 

 

“Feche os olhos e pense na cena, isso irá lhe ajudar a eliminar os detalhes e destacar a estrutura principal.”

 

ANG

Outra dica que pode contribuir na definição da estrutura da imagem é enfatizar os elementos básicos da comunicação como ponto, linhas e formas geométricas. O ponto é um elemento de grande atração visual. Podem ser usadas, da mesma forma, composições radiais em que os elementos se irradiam do meio do quadro para fora, até mesmo para fora da imagem, dando uma sensação de continuidade.

O uso de linhas diagonais conduz o olhar do observador e transmite mais energia do que as composições com linhas horizontais. 

E as formas geométricas, como retângulos, triângulos e círculos, podem estabelecer relações harmoniosas com o retângulo da foto ou serem usadas para criar alguma forma de tensão e desequilíbrio.

Observe os enquadramentos. A regra dos terços é muito útil. Dividindo a imagem em três partes horizontais e três verticais, você pode explorar essas linhas e pontos de intersecção para criar composições instigantes. 

Geralmente, é recomendado usar a linha do horizonte acima ou abaixo da linha central. 

Mas você pode optar por dividir a foto em duas partes iguais para valorizar uma imagem simétrica ou destacar a imagem e seu reflexo, por exemplo. Para fotografar pessoas ou animais, mantenha distância da pessoa e dê zoom na câmera para criar o enquadramento. É muito legal quando eles nos olham.

VEJA O INCOMUM

Observe os detalhes e perceba os reflexos, eles podem criar outras camadas de informação. Experimente usar ângulos diferentes e se colocar no lugar de um observador inusitado, como um cachorro ou uma formiga.

EXPLORE OS CONTRASTES

O contraste é fundamental na fotografia. E não apenas os contrastes entre claros e escuros ou entre cores, mas muitas outras formas podem ser exploradas, como contraste entre grande e pequeno, muito e pouco, vertical e horizontal, liso e rugoso, opaco e transparente, quente e frio, curvo e reto.

CRIE RITMO

A imagem também pode ser ritmada e as formas repetitivas são muito ricas para provocar esse efeito. Tanto padrões encontrados na natureza como elementos criados pelo ser humano podem ser usados para criar ritmo na fotografia. 

Essas são apenas algumas dicas e fotos produzidas pela professora Janaína. Veja muito mais no site e no canal do YouTube: