A elaboração de um trabalho acadêmico/científico é um processo de produção de conhecimentos novos e exige aprofundamento nas leituras, reflexão e muita organização, seguindo métodos bem definidos. Elaborar os pensamentos e estruturar ideias em um texto claro e coerente não é uma tarefa fácil. A dificuldade é muito maior se tiver que ser feito em uma língua que não é a nossa. É o que acontece com os surdos quando desenvolvem um projeto, como o trabalho de conclusão de curso (TCC), em português.

Essa imposição ocorre em muitas instituições, principalmente porque não existem normas definidas nacionalmente para a elaboração de trabalhos científicos em Libras. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) é responsável pela definição de um modelo de referência para que as instituições nacionais tenham um padrão a seguir na elaboração de trabalhos acadêmicos. A definição de um padrão evita que as instituições adotem diferentes modelos de formatação para um mesmo tipo de trabalho.

As orientações da norma contribuem para a elaboração de textos limpos, bem estruturados e organizados, facilitando a leitura e a inteligibilidade desses materiais. O fato de que a ABNT dispõe de um modelo determinado para todo o Brasil contribui, inclusive, no âmbito da avaliação dos trabalhos, colocando o foco da atenção no conteúdo e não na formatação.

Darley

Mas a ABNT só orienta a formatação de textos em português e não oferece referências para a produção de trabalhos em Libras, apesar da língua brasileira de sinais ser uma língua estruturada, que possui regras e classes gramaticais, assim como o português, e ser reconhecida legalmente como forma de comunicação e expressão dos surdos. Essa falta de acessibilidade prejudica o desempenho dos estudantes surdos, que necessitam recorrer a diversas estratégias para adaptar seus trabalhos. O esforço maior, pelo qual os ouvintes não passam, é desestimulante e, muitas vezes, faz os estudantes se sentirem pressionados e afetados psicologicamente.

Ao formular um pensamento crítico sobre algum assunto ou explicar determinado ponto de vista, o sujeito surdo se sente seguro se garantido o seu direito linguístico de usar a Libras. Caso esse direito seja tolhido, o aluno surdo perde sua confiança, apresenta inimagináveis dúvidas acerca de como manifestar sua perspectiva sobre temas sobre os quais queria dissertar.

Darley

Se o orientador for ouvinte, o processo pode ser ainda mais complicado. A presença de tradutores é necessária em diferentes fases do trabalho, não apenas nas reuniões de orientação. O estudante surdo geralmente prefere elaborar as ideias em Libras e, em seguida, fazer a tradução para o português. Isto pode ser feito por um tradutor, mas a elaboração de um texto científico vai sendo construída com muitas alterações e reorganização das ideias; no processo, vão saindo algumas partes e incluindo outras, ocorrem interferências do orientador, das novas leituras e dos resultados observados. É preciso definir a hora certa da tradução e como será feito o trabalho.

Darley Goulart fez seu trabalho de conclusão sobre a normatização de trabalhos acadêmicos. E o próprio trabalho de elaboração do seu TCC é um exemplo das dificuldades enfrentadas. O trabalho foi inicialmente elaborado em Libras e traduzido para o português por um tradutor. Depois, sofreu ajustes feitos pela orientadora e chegou um momento em que o estudante não se identificava mais com o texto. Foi necessário mudar a estratégia e reescrever boa parte. O texto continuou sendo produzido em Libras, mas o próprio estudante traduzia para português. Após, o texto passava pelas observações de orientação e, por fim, era feita a revisão do português. Na educação bilíngue, os surdos usam a Libras e o português escrito e considera-se importante o estímulo para que desenvolvam as habilidades de leitura e de escrita em português; entretanto, é algo difícil e, geralmente, os textos escritos pelos surdos usam uma estrutura mais parecida com a da Libras, o que dificulta a leitura, a correção e a avaliação do trabalho, necessitando de muitos ajustes para que as ideias estejam claramente apresentadas. Esse trabalho deve ser feito com o estudante surdo para que o texto não sofra alterações que desconfigurem o estilo do autor, o que pode envolver um tempo longo e as discussões se voltarem mais para a forma do que para o conteúdo. Deve-se ter cuidado para que as orientações, feitas com os tradutores, não sejam superficiais, desestimulantes ou confusas. É fundamental que a orientação tenha como foco os conteúdos, métodos e estrutura do trabalho, e não pode ser separada da forma e da correção do texto, para a apresentação clara e coerente das ideias.

Priscila Paris, tradutora e intérprete, a partir de sua experiência de acompanhamento e tradução de trabalhos acadêmicos científicos, explica que são necessárias muitas horas para a tradução. O processo é demorado porque é feito em parceria com o estudante, fazendo ele refletir sobre a forma mais precisa para expor cada ideia (em ambas as línguas) e sobre os significados dos termos empregados, evitando ambiguidades. Isso importa muito.

Algumas instituições já aceitam trabalhos de conclusão de curso em Libras e, para tanto, definem suas próprias normas. Porém, isso faz com que exista uma enorme variação entre elas, não havendo um modelo nacional a ser seguido. Além disso, algumas normas dificultam a produção dos vídeos ou exigem demasiado esforço de quem for ler o texto em vídeo.

Visando contribuir para que os estudantes do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) tenham o direito de fazer seus trabalhos de conclusão de curso em Libras, o estudo de Darley Goulart partiu de um referencial teórico sobre o tema, investigou normas para trabalhos em Libras já adotadas por outras instituições e fez uma proposta de normatização para a elaboração dos TCC em Libras.

O estudo teórico buscou referências sobre as características dos surdos e de sua língua, do gênero textual de trabalhos acadêmicos e suas normas e do design de textos em Libras. Depois, foram analisadas as normas utilizadas em outras instituições, buscando identificar os recursos que mais contribuíam para a legibilidade e leiturabilidade dos textos, que fossem mais adequados às características dos leitores surdos e que facilitassem a produção de vídeos com qualidade.

A elaboração das normas para trabalhos em Libras não é apenas uma tradução da ABNT. Um texto escrito utiliza elementos do design editorial que são muito diferentes dos recursos usados em um texto em vídeo na língua de sinais. Também é diferente a forma de produção e os aspectos que influenciam a fluidez da leitura. Portanto, a elaboração de normas para a produção de textos acadêmicos/científicos em Libras exige conhecimentos de design para viabilizar a formatação e contribuir com a leitura. É preciso considerar que detalhes sutis na configuração de um texto podem ser muito importantes para a fluidez da leitura.

Para uma leitura confortável, é imprescindível que os textos tenham boa legibilidade, ou seja, que as letras e palavras sejam facilmente identificáveis. Em língua de sinais, isso depende principalmente das cores, relação figura e fundo, tamanho, iluminação e resolução.

Além do mais, a tipografia precisa ser planejada para comunicar claramente a estrutura do texto e fazer a leitura fluir com facilidade, o que é chamado de leiturabilidade e no texto escrito está relacionado com o comprimento de linhas, espaçamentos, alinhamentos e a relação do conteúdo escrito com outros elementos como notas de rodapé, destaques, numeração, títulos.

Uma leitura confortável e significativa nos vídeos em Libras depende do estilo e do ritmo da sinalização, da forma de apresentação das imagens, se estão intercaladas ou com a sinalização, da forma como os conceitos e exemplos são apresentados, de como a estrutura do texto é marcada e de como é feita a navegação entre essas partes.

A satisfação do leitor está relacionada com as características do público e do contexto em que o texto será lido. Um texto acadêmico possui características específicas para uma leitura rápida do resumo e conclusão, propicia o aprofundamento sem desviar a atenção para o design e tem uma organização que facilita a compreensão da estrutura do texto pelos estudantes e pesquisadores.

Para os surdos, é importante considerar que os elementos visuais podem ser atrativos, mas não podem atrapalhar a visualização da sinalização e, no caso de textos acadêmicos, devem ser objetivos, sua função deve ser clara e devem estar devidamente referenciadas. Também pode ser útil definir os conceitos menos comuns, antes das discussões e oferecer um glossário.

Ainda, na elaboração de textos acadêmicos em Libras, é essencial facilitar o trabalho de produção do texto em vídeo, evitando-se a necessidade do uso de estúdios, equipamentos sofisticados ou softwares muito complexos. Foram analisadas três normas para trabalhos em Libras.

Manual para Normalização de Trabalhos Monográficos em Libras e Língua Portuguesa do DESU/INES.

Regimento dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) do Curso de Graduação em Letras-Libras, que adota as normas da Revista Brasileira de Vídeo-Registros em Libras.

Regulamento para Trabalhos de Conclusão de Curso das Licenciaturas em Letras Libras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Com base nessas normas foram selecionadas as estratégias gráficas que mais contribuem para a legibilidade, leiturabilidade, satisfação do leitor surdo e facilidade de produção dos vídeos e foi elaborada uma proposta de Norma para trabalhos acadêmicos em Libras para ser usada no IFSC.

FORMATOM E TAMANHO

O formato e o tamanho das páginas em um texto escrito são diferentes para cada tipo de material (jornais, revistas, teses etc.) e influencia a forma de manuseio e o ritmo de leitura.

O modelo da RBVRL/UFSC, foi escolhido por oferecer melhor qualidade de imagem em tela, maior legibilidade e conforto visual na leitura.

RBVRL/UFSC

TIPOGRAFIA

A ABNT exige o uso de fontes Arial ou Times New Roman valorizando a formalidade e a clareza da informação. Recomenda-se a fonte tamanho 12 para todo o trabalho, exceto citações com mais de três linhas, notas de rodapé, paginação, dados internacionais de catalogação e legendas.

Em língua de sinais, indica-se o uso de roupa neutra, cor lisa e sinalização clara.

A opção selecionada é a camiseta tipo t-shirt, mas, como sugestão, foi adicionada a opção de usar camisas do tipo social. Conforme Darley, a “a camiseta t-shirt seria como a fonte “Arial” e camisa social como a “Times New Roman”.

ESTRUTURA E NAVEGAÇÃO

Em um texto escrito, podemos folhear as páginas e nos orientar pelos índices e numeração das páginas. Ou rolar o texto e usar o sistema de buscas, se o texto for digital.

Em língua de sinais, essas ações correspondem à:

ler = play;
virar página = pular/avançar tempo;
parar a leitura = clicar em pausar;
ler mais rápido = escolher velocidades 1x, 2x, 3x.
(a) RBVRL/UFSC, (b) LETRAS/UFPE, (c) DESU/INES

Em um vídeo em língua de sinais, também é relevante deixar clara a estrutura do texto e facilitar a navegação, usando menus e elementos indicativos em cada seção do texto em vídeo.

Foi escolhido mostrar a numeração e o nome das seções ao longo do vídeo, pois facilita a localização das informações tanto quando se busca no player, em velocidade acelerada, ou na barra de passagem do tempo.

Proposta Darley Duarte

MARGENS

As margens contribuem para destacar o texto e são usadas para manuseio e para fazer anotações.

Foi escolhido mostrar a numeração e o nome das seções ao longo do vídeo, pois facilita a localização das informações tanto quando se busca no player, em velocidade acelerada, ou na barra de passagem do tempo.

(a) RBVRL/UFSC, (b) DESU/INES

As margens nos vídeos evitam que partes da sinalização sejam cortadas ou que se limitem os movimentos do sinalizante. É necessário definir também o enquadramento, se a posição do intérprete será de perto, longe ou se o enquadramento varia de acordo com o conteúdo.

Foi definido adotar a norma da RBVRL/UFSC (2020), com a posição horizontal por ser melhor para a visualização dos sinais em Libras com mais espaço livre e sem cortes. O quadro superior da câmera deve ficar aproximadamente 6 centímetros acima da cabeça, a parte inferior aproximadamente 6 centímetros abaixo da posição das mãos do sinalizante e laterais esquerda e direita incluindo posição dos cotovelos com os dedos médios se tocando à altura do peito.

CORES

As margens nos vídeos evitam que partes da sinalização sejam cortadas ou que se limitem os movimentos do sinalizante. É necessário definir também o enquadramento, se a posição do intérprete será de perto, longe ou se o enquadramento varia de acordo com o conteúdo.

Foi definido adotar a norma da RBVRL/UFSC (2020), com a posição horizontal por ser melhor para a visualização dos sinais em Libras com mais espaço livre e sem cortes. O quadro superior da câmera deve ficar aproximadamente 6 centímetros acima da cabeça, a parte inferior aproximadamente 6 centímetros abaixo da posição das mãos do sinalizante e laterais esquerda e direita incluindo posição dos cotovelos com os dedos médios se tocando à altura do peito.

(a) RBVRL/UFSC, (b) DESU/INES

As cores da roupa, o plano de fundo e a pele do sinalizante precisam ter um contraste adequado para melhor legibilidade do sinal. Foi adotada a norma da RBVRL/UFSC, com parede branca, para facilitar a produção dos vídeos.

ILUSTRAÇÕES, TABELAS  E OUTROS RECURSOS 

Ao usar um elemento visual é necessário fazer uma referência no texto, explicando e contextualizando o que será mostrado. A norma define como deve ser a posição, o título e a fonte.

(a) RBVRL/UFSC, (b) LETRAS/UFPE, (c) DESU/INES

Em língua de sinais, é importante planejar a relação entre o que é sinalizado e as imagens.

Para facilitar a produção dos vídeos foi adotada a recomendação da imagem aparecer depois da sinalização conforme a norma para TCC da LETRAS/UFPE (2018). Essa recomendação oferece também maior leiturabilidade, evitando que o leitor tenha que pausar o vídeo para observar a imagem no momento que achar mais adequado e maior legibilidade, evitando o incômodo da imagem aparecer por sobre o corpo de sinalizante.

NOTAS E CITAÇÕES

As normas definem o tipo de fonte, tamanho, alinhamento, recuo e espaçamento entre linhas para as notas e citações para que se diferenciem do texto principal e sejam claramente identificados.

(a) RBVRL/UFSC, (b) LETRAS/UFPE, (c) DESU/INES

Em língua de sinais, o intérprete pode indicar o que será sinalizado, podem ser usadas mudanças nas cores de fundo ou da camiseta ou usar elementos gráficos como quadros com cores e tamanhos diferentes para essa sinalização.

A norma do DESU/INES (2015) usa um quadro secundário com 30% do tamanho da tela, centralizado na parte inferior da tela, em fundo amarelo para as notas de rodapé e vermelho para citação direta, o que facilita a identificação desses elementos, no entanto, para facilitar a produção dos vídeos foi selecionada a norma da RBVRL/UFSC (2020) com a mudança da cor da camisa para vermelho. Nas citações são incluídas o texto em português com o nome do autor, ano e página.

NUMERAÇÃO, TÍTULOS, ÍNDICES

Nos textos escritos são usados elementos como numeração, títulos e índice para indicar a estrutura do texto.

(a) RBVRL/UFSC, (b) LETRAS/UFPE, (c) DESU/INES

Em língua de sinais interessa considerar como esses elementos serão apresentados ao longo do vídeo para facilitar a localização. Nos títulos podem ser usadas cores de roupa diferentes, aproximação do intérprete, mudança nas cores de fundo, a indicação na sinalização de que é um título, além do texto em português para complementar.

Foi adotada a norma RBVRL/UFSC (2020) que utiliza para o título do trabalho a capa do TCC com texto em português dentro do vídeo. Para a sinalização do título, que aparece a seguir, e para os títulos das seções é usada a camisa de cor azul. Isso contribui para a leiturabilidade com a identificação da estrutura do texto e também facilita produção dos vídeos.

Também é útil usar um menu e subdividir o vídeo nos diferentes capítulos e seções. A numeração das páginas no texto escrito corresponde à marcação do tempo de vídeo, configurado no player, e as normas não indicam como fazer.

Veja a norma sugerida para o IFSC:

As pessoas surdas têm direito de utilizar a língua de sinais como língua principal e é fundamental que possam usufruir do direito de escolher uma língua que os represente também em suas produções acadêmicas.

Para que a produção de trabalhos de conclusão de curso seja mais justa e acessível, é urgente e necessária a valorização da Libras nas instituições de ensino e a adoção de normas aplicadas nacionalmente para a elaboração de trabalhos em Libras.