Artivismo surdo: movimento De’VIA

O movimento Deaf View Image Art (De’VIA), que significa Imagem e Arte na Perspectiva Surda, foi um movimento artístico que começou na década de 1980, nos Estados Unidos, e ainda hoje é uma referência para a arte e para as estratégias de resistência política dos surdos.

A professora Gabriele Vieira Neves desenvolveu sua tese de doutorado, intitulada Corpos surdos na arte De’VIA: resistências políticas das imagens, investigando como artistas do movimento De’VIA representam a experiência de ser surdo em um mundo que parece feito por ouvintes e para ouvintes.

Conforme Gabriela, o movimento De’VIA foi muito importante para a construção de uma narrativa surda a respeito da própria história e sua surdidade, ou seja, sua forma de estar no mundo.

Embora muitas conquistas tenham ocorrido nos últimos anos, com o reconhecimento da importância da língua de sinais e de promover a acessibilidade, ao longo do tempo, em todo o mundo, os surdos enfrentaram políticas muito cruéis, discriminação, isolamento, foram tratados como incapazes e anormais e muitos não tiveram nem sequer a oportunidade de ter uma língua.

MILLER, Bety. Ameslan Prohibited, 1972.

A história dos surdos mostra que eles foram impedidos de usarem sua forma de comunicação natural, que é a língua de sinais, e a maioria era obrigada a passar por processos de oralização e aprendizagem da leitura labial com treinamentos fonológicos extenuantes e humilhantes. A surdez era tratada como doença, fazendo com que os surdos passassem boa parte do tempo envolvidos com tratamentos médicos, muitos foram considerados anormais, submetidos a tratamentos psiquiátricos e mesmo internados em manicômios. Mulheres surdas foram esterilizadas sem consentimento e ocorreram até mesmo situações de extermínio de surdos, como no nazismo.

Mas a vida surda não é só isso e a pesquisa da professora Gabriele revela também um trabalho de libertação e de afirmação da cultura surda através da arte.

 

(…) a minha formação na área da história não me deixava satisfeita com esse discurso quase unívoco sobre a história surda. Era evidente que, de fato, houve abusos e que as relações de poder entre surdos e ouvintes era de opressão, entretanto, eu perguntava-me, como, afinal de contas, as línguas de sinais e a cultura surda sobreviveram a tantos anos de proibição e de coerção.

Gabriele Vieira Neves

Conforme Gabriele, a arte possibilita transcender a barreira linguística e expor a diferença de forma não vitimizada e não estereotipada. Além de ser uma estratégia de luta política contra o preconceito e de resistência ao poder normalizador, a arte tem o poder de encantar ao celebrar a surdidade.

ARTIVISMO

O De’VIA é um movimento de Artivismo, ou seja, uma arte ativista, que é engajada, que reivindica, contesta, luta por uma causa. É uma arte que revela as experiências surdas, de forma crítica e sensível. Ao revelar seu olhar sobre o mundo, os artistas também contribuem para diminuir o preconceito e a ignorância.

O grupo de artistas fundadores do De’VIA elaboraram um manifesto que declara essa ideia. Leia um trecho:

 

De’VIA representa os artistas Surdos e as suas percepções baseadas nas suas experiências Surdas. Utiliza elementos artísticos formais com a intenção de expressar a experiência cultural inata ou a experiência física Surda. Essas experiências podem incluir metáforas Surdas, perspectivas Surdas, e a percepção Surda em relação ao ambiente (tanto o mundo natural quanto o ambiente cultural surdo), espiritual e da vida cotidiana.

MANIFESTO De’VIA, 1989

O manifesto De’VIA afirma também que não basta ser surdo para fazer arte De’VIA. Alguns surdos fazem arte que não está relacionada com a surdidade, como pinturas de natureza, por exemplo. E muitos ouvintes fazem arte relacionada com a cultura surda, abordando as experiências de convívio em famílias de surdos.

OS TEMAS

Na arte De’VIA são observadas duas formas de ativismo conforme o tema abordado: arte de resistência e arte de afirmação.

Na arte de resistência, as obras destacam a educação oralista, a invasão dos corpos pela medicina, a engenharia genética e as situações em que surdos são feitos de cobaias, a manipulação dos surdos por instituições e pessoas ouvintes, o desespero das famílias ao saberem da surdez dos filhos, as visões injuriosas e preconceituosas, o isolamento linguístico e as políticas de extermínio.

Na arte da afirmação, as obras mostram o empoderamento dos surdos, a beleza da língua de sinais, cultura e identidades.

Arte de resistência

Veja algumas obras que destacam o dia a dia nas escolas oralistas, locais onde crianças eram proibidas de usarem a língua de sinais. Nestas pinturas podemos observar também as infâncias marcadas pelas tentativas de produzirem surdos “normais”, adequados para a sociedade ouvinte, com o uso de aparelhos, cirurgias e treinamentos auditivos.

ROURKE, Nancy. Preschool Oralist Abuse, 2015. DURR, Patti. Me as small d. , 2015.
MECHAM, Philip. The new slave, 2011. WINSHIP, Daniel. CI (cochlear implants), 2013.

Uma imagem recorrente é o macaquinho de pelúcia Jolly Chimp, um brinquedo que era muito popular nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. Esse brinquedo era utilizado nas sessões de fonoaudiologia: quando a criança acertava o exercício, o macaquinho batia palmas. Para os surdos, o brinquedo pode representar um objeto de pelúcia assustador, uma lembrança dos tempos em que eram forçados a comportamentos repetitivos, enfadonhos e torturantes.

APAZZO, Mary. Say baseball, say pancake, 2013. ROURKE, Nancy. The hearing test room. 2016. ROURKE, Nancy. Institutionalized. 2016.

Outros trabalhos marcantes são os que usam imagens injuriosas relacionando os surdos a animais e monstros. Os surdos são apresentados como animais domésticos, que fazem parte da família de ouvintes, mas não são tratados como iguais. Também são apresentados como monstros humanos, anormais, não naturais, que causam repulsa e temor.

 

A criança surda está sempre em algum lugar entre o humano e o animal e, ao exporem essa condição, as artistas surdas colocam em questão, para além das formas desumanizadoras a que foram submetidas as pessoas surdas ao longo dos anos, as fragilidades das fronteiras do humano.

Gabriele Vieira Neves

Essas obras são uma forma potente de crítica e de resistência política de contrapondo às ideias romantizadas de família bondosa e de criança deficiente dócil. Expõem o caráter perverso, normalizador e disciplinar envolvido nessas relações, assim como a rebeldia e o inconformismo.

DUPOR, Susan. The Nooning. 2005. DUPOR, Susan. F-I-X, the new eugenics, 2000.
DUPOR, Susan. Family Dog, 1991.

Também é comum encontrarmos imagens que representam os surdos como cobaias. O quadro Flock of Mice mostra ratos brancos fugindo. Cada rato tem uma etiqueta na orelha com abreviaturas de instituições de pesquisa, correção e tratamento da surdez.

Em outro quadro podemos ver várias crianças sem feições, apenas com bocas e orelhas e dois adultos, possivelmente professores ouvintes, com rostos completos. A imagem fica dentro de um círculo que tem uma placa com o texto “deficiência auditiva” e ao redor do círculo, em cada canto da tela, há um rato. A imagem faz alusão às práticas de testagens de aparelhos auditivos, rotinas de exames e tratamentos da surdez como doença.

DUPOR, Susan. I Interesting Hamster. 1993. ROURKE, Nancy. Flock of Mice. 2016.
FOWLER, Tony. Project Manipulation, 2013. CALL, David. Oral Mind Control. 2015. ROURKE, Nanc.String puppets. 2011. ROURKE, Nancy. Fantoche. 2015.

A metáfora do peixe fora d’água e dos surdos integrados com o mundo submerso, fazendo parte do cardume silencioso, é muito significativa.

DUPOR, Susan. Surrender2019. ROURKE, Nancy. Deaf Schooling Handeye Fish 8, 2016. DUPOR, Susan. Twenty Handshapes Beneath, 2003. DUPOR, Susan. Fluxo de Consciência, 2003.

A surdez já foi considerada como algo maldito, demoníaco ou resultante de comportamentos condenáveis, como casamentos consanguíneos e promiscuidade. Além disso a ideia de uma suposta melhoria da espécie fez com que os surdos fossem submetidos a esterilizações, impedimentos de casamentos, negação de direito de herança entre outras brutalidades, como representado nas imagens da arte De’VIA.

ROURKE, Nancy, Survivors of the Holocaust. ROURKE, Nancy. I Sterilized Without Consent. 2018.

Arte de afirmação

 

A arte De’VIA também tem uma vertente de exposição das experiências surdas no interior da sua comunidade, da celebração do encontro entre surdos e do uso da língua de sinais. É a chamada arte De’VIA de Afirmação.

Gabriele Vieira Neves

MILLER Bety. Celebration of Hands. BAIRD,Chuck. Colors, 1993. ROURKE, Nancy. You and me Deaf Same, 2012. ROURKE, Nancy. Bilingual Mind. 2014. ROURKE, Nancy. Deaf People Can, 2012. BAIRD, Chuck. Minority, 2011.

AS FORMAS

O Manifesto De’VIA também identifica os recursos visuais usados na arte surda.

 

A arte De’VIA pode ser identificada por elementos formais, como a possível tendência dos artistas surdos em usar cores e valores contrastantes, cores intensas e texturas contrastantes. Pode também incluir, na maioria das vezes, um foco centralizado, com exagero ou ênfase nas características faciais, especialmente olhos, bocas, orelhas e mãos. Atualmente, artistas surdos tendem a trabalhar em escala humana com esses exageros, e não exageram o espaço em torno desses elementos. As partes do corpo enfatizadas remetem à modalidade das línguas de sinais, que tem como meio de recepção os olhos e de emissão as mãos, e às opressões que ocorrem por meio obrigação da fala e da leitura labial, evidenciadas pela presença das bocas. A presença das orelhas evidencia as tentativas de normalização da audição.

MANIFESTO De’VIA, 1989

ROURKE, Nancy. 1)Audism Block, 2012. 2) Man Made Hearing, 2012. 3) Audism, 2012. 4) Symbol of Audism, 2018.  ROURKE, Nancy. Fifth Grade Experience. 2016. MILLER, Bety. Untitled. MILLER, Betty G. Frazzled, 1999. BAIRD, Chuck. Why me.

Essas definições formais que aparecem no Manifesto De’VIA (como o uso de cores contrastantes e intensas e a representação dos corpos com partes exageradas, por exemplo) parecem restringir as possibilidades artísticas. No entanto, o movimento De’VIA continua vivo e o artivismo surdo é constantemente atualizado. As características da arte De’VIA são encontradas em diferentes trabalhos ao redor do mundo e as imagens continuam surpreendendo, como mostram algumas obras selecionadas na tese de Gabriele.

KATZ – HERNÁNDEZ, Daniel. Perfilado. 2020.
SWASTIK, Jana. Língua Gestual é uma língua materna dos surdos, 2020. BEAR-BROWN. Sara Young. Sem título. KAJI, Zeinab Sadegh. Sem título, 2020. DOAMBA, Erge. Sem título. 2020. TANDOK, Jennifer .  Sem título. WANG, Yiqiao Lady Signs Flower, 2010.
SANTOS, Rafael Caldeira . (ODRUS). Sem título.

Ao longo do estudo, Gabriele foi conhecendo muitos artistas e se encantando com as obras. Seu entusiasmo fez com que quisesse compartilhar essas descobertas e, quando concluiu o doutorado, montou uma equipe com surdos e ouvintes para elaborarem o curso on-line História Visual dos Povos Surdos: Contribuições do Movimento De’VIA.

O curso tem duração de 4 horas, oferece certificado, é oferecido em Libras e em português, é gratuito, não exige nenhum requisito e é aberto a todos. Temos certeza que você vai gostar. Conheça: