DESENHO DE FONTES

O desenho de fontes de texto é um trabalho complexo e envolve aspectos técnicos, funcionais, estéticos e semânticos.

A criação de caracteres pode ser desenvolvida para uma marca, uma capa, para um texto impresso em um catálogo, em tamanho bem pequeno, para a leitura em tela, para chamar a atenção em um outdoor, para transmitir uma ideia em um pôster, por exemplo.

Considera-se que um texto é para ser lido e compreendido. A legibilidade seria então uma característica importante, pois se refere à clareza da forma, à facilidade que oferece para o reconhecimento de cada letra. Mas, em alguns casos, o objetivo pode ser provocar uma reação emocional, como transmitir uma sensação de confusão.

David Carson

design dos caracteres para uma fonte que será usada em um texto longo tem boa legibilidade e busca facilitar a leiturabilidade. Uma fonte com a forma bem definida, usada em tamanho adequado e com contraste nítido com o fundo, pode ter boa legibilidade e, mesmo assim, não favorecer o ritmo e a compreensão da leitura, ou seja, não ter boa leiturabilidade. Por exemplo, uma fonte com espaçamentos irregulares, que crie buracos e áreas escuras na mancha gráfica (bloco de texto), pode ser prejudicial para a fluidez da leitura. Fontes muito pesadas ou muito leves podem prejudicar a leiturabilidade.

Essas são características técnicas que precisam ser observadas, levando em consideração os objetivos do projeto e os usos prováveis, como gênero textual (anúncio, bula de medicamento, cardápio de restaurante, e-mail, tese etc.) e o suporte (tela, impressão, tipo de papel etc.). Podemos dizer que os tipos têm personalidade. Observe:

Leia em voz alta ou faça uma expressão que diferencie a sinalização de cada letra e observe os diferentes sentidos. Qual é o tom? Qual é a sensação que cada uma transmite? Qual é a mais forte? Qual é a mais braba? Qual é a mais delicada? Qual é a mais gentil?

A tipografia pode nos remeter para uma época distante, lembrar uma empresa, estimular ou desestimular a leitura. E cada detalhe contribui para isso.

Observe que nos tipos antigos temos as serifas, uma variação na espessura dos caracteres e uma inclinação do eixo entre a parte mais grossa e a mais fina. Nas fontes modernas, essa variação entre grosso e fino é bem marcada, o eixo é vertical e as serifas são retas. As fontes sem serifa podem manter espessura do traço ou ter pequenas variações.

Observe os detalhes das formas e a respectiva nomenclatura. Tudo contribui para criar a personalidade do tipo.

As fontes podem ter família. As variações de estilo de uma fonte formam uma família tipográfica. Veja, por exemplo, as versões regular, itálico, bold, light e condensed da fonte Humnst:

A tipografia nunca é totalmente neutra, mas existe uma discussão sobre a escolha do tipo mais adequado para a leitura de um texto longo. Alguns designers consideram que a tipografia deve ser invisível, ou seja, o design tipográfico não deve chamar a atenção. Se não percebermos sua forma, mais nos concentraremos no que interessa, que seria o conteúdo do texto. Portanto, o hábito de leitura deve ser considerado. Quanto mais comum a fonte escolhida, menos ela será percebida e seguir as regras clássicas, ou o que chamamos de etiqueta tipográfica, é útil para isso.

Outros designers valorizam os significados e a qualidade estética do texto e gostam de inovações. Alguns comentários de designers que trabalham com projetos editoriais ilustram a polêmica:

Somente porque algo é legível, isso não quer dizer que comunica; pode ser que esteja comunicando a coisa errada. Alguns títulos tradicionais de livro, enciclopédias ou muitos livros que os jovens jamais apanhariam numa prateleira, poder-se-ia torná-los mais atraentes.

David Carson, in Hedel, 2022

A verdadeira razão para a série de defeitos nos livros e em outros materiais impressos é a falta de tradição – ou a deliberada dispensa dela –, e o arrogante desprezo por toda e qualquer convenção. Se podemos ler satisfatoriamente qualquer coisa, é porque respeitamos o usual, o lugar comum. Saber ler implica obedecer às convenções, conhecê-las e respeitá-las.

Jan Tschichold, in Hedel, 2022

Se temos de fazer o design de nossos livros, nossas edições comerciais de hoje, numa base funcional – se o texto é apresentado para ser lido agora, este ano, temos de pôr de lado esses amores antigos. Nosso design é contemporâneo. Não pode deixar de sê-lo. Não se pode copiar e repetir com sucesso nem mesmo a mais bela tipografia de outra época – porque não se viveu naquela época.

W. Dwiggins, in Hedel, 2022

O design deve olhar para a frente e ser agressivamente contemporâneo. Quando se olha para trás rejeita-se a oportunidade de tomar atitudes novas, e significativas, afins com a nossa época particular. Nossa responsabilidade é, portanto, refletir nosso lugar, nosso tempo e nossa atitude… E, embora vivamos um período de transição, nunca houve um tempo, um lugar e uma atitude como os nossos.

Merle Armitage, in Hedel, 2022

Está provado, um livro muito difícil de ler é inútil. Mas achar que a impressão deve servir apenas à função de legibilidade é o mesmo que dizer que a única função da roupa é cobrir a nudez, ou que o único uso da arquitetura é fornecer abrigo.

Merle Armitage, in Hedel, 2022

Não quero ser coautor, mas nenhum designer consegue evitar inteiramente influenciar a forma como um texto será lido. Minha intenção é, no mínimo, sair do caminho do texto. Mesmo o menor detalhe que saiu errado – uma vinheta num título corrente que ficou um pouquinho grande demais – pode ser tão irritante quanto raspar a unha num quadro negro.

Hende, 2022

Enfim, cada projeto precisa ser desenvolvido tendo clareza de seus objetivos e consciência de que cada detalhe importa. Em um texto longo, se o design não for adequado, a leitura pode ser até irritante.

Como em qualquer trabalho projetual, um bom método pode facilitar o processo. Por isso, a metodologia é uma área de estudo tão importante no design. A tese de Luiza Falcão (2021) propõe justamente um método para o projeto de design de tipos. Partindo de um estudo bibliográfico e de entrevistas com designers de tipos, a autora detalhou as etapas para a aprendizagem do design de fontes para textos. Conheça mais sobre o processo de trabalho e veja exemplos de projetos de fontes desenvolvidos por estudantes do IFSC.

Etapa 1: Pesquisa e definição de requisitos

Na etapa inicial são definidas as características que o tipo deverá ter, levando em consideração os usos previstos, ou seja, sua função, os aspectos técnicos e os conceitos.

O projeto pode ser contratado por um cliente, para uma aplicação definida, ou ser uma proposta que parta do próprio designer.

Não se pode prever todos os usos que a fonte terá, mas é importante pensar qual a situação seria ideal para a aplicação da fonte. Seria mais adequada para um texto impresso? Para leitura na tela? Em tamanho grande ou pequeno? Essas informações ajudam a definir os requisitos do projeto. Por exemplo, uma fonte para uso na identidade visual de uma empresa pode não exigir o desenvolvimento da família tipográfica completa.

Uma fonte decorativa ou caligráfica pode ter um trabalho de experimentação mais livre, mas se o projeto for de uma fonte para uso em textos longos, será necessário considerar alguns aspectos técnicos específicos como a extensão da família tipográfica e o idioma em que será usada, porque alguns caracteres especiais podem ser necessários.

A definição dos conceitos é muito importante. Essas palavras-chave definem o que o tipo pretende transmitir, suas características estéticas e semânticas. Veja, por exemplo, o trabalho de design da fonte Derramada, desenvolvido por Mateus Padilha. A fonte foi criada a partir de estudos caligráficos espontâneos. Os conceitos escolhidos foram: com movimento, decorativa, ondular, sem serifa.

Mateus Padilha

Nessa etapa inicial também são feitas pesquisas que ajudam a definir os parâmetros tipográficos como a proporção horizontal dos caracteres, a proporção vertical (altura-x, altura das ascendentes e descendentes) peso, espessura das linhas (se terá toda a mesma espessura ou qual será o contraste entre as partes finas e grossas e qual será o eixo de orientação entre elas), tipo de serifa etc.  

A autora sugere começar selecionando algumas fontes como inspiração e observar como cada detalhe pode contribuir para se transmitir os conceitos. Para fazer um estudo comparativo, ela propõe usar um gráfico. Por exemplo, se um dos conceitos fosse delicadeza, como os diferentes tipos selecionados na análise estariam classificados? Qual transmite mais a sensação de delicadeza?

Luiza Falcão Soares Cunha

A elaboração de um painel semântico pode ajudar na visualização da ideia. Veja o exemplo feito para a criação da fonte Derramada.

Mateus Padilha

Etapa 2: Projeto gráfico

Nesta etapa são feitos os desenhos dos caracteres e a definição dos espaços entre as letras.

Pode-se começar com esboços à mão. Algumas letras servem de base para o desenho da fonte, pois delas derivam as demais, como as letras a, d, n, o, v. A maioria dos designers de tipos começa o trabalho pelo desenho das letras minúsculas.

Luiza Falcão Soares Cunha

Depois dos esboços iniciais, é fundamental desenhar uma malha definindo uma proporção para o desenho dos caracteres.

Maria Eduarda Ferreira Martins, Juliana Fonseca Souza

Para o desenho da fonte Derramada, foi utilizada uma folha milimetrada:

Nessa etapa são feitas as observações sobre legibilidade e leiturabilidade. Para isso, é preciso compor algumas palavras e textos:

A definição dos espaços entre as letras é uma das etapas mais demoradas e importantes. É necessário que os espaços entre as letras sejam diferentes, dependendo se ficam entre formas retas, inclinadas ou curvas.

A letra “o” tem laterais curvas, a letra “n” tem laterais retas e a letra “v”, por exemplo, tem laterais inclinadas. Observe que geralmente, para que haja uma harmonia, o espaço entre “ooooooo” não é semelhante ao espaço entre “nnnnnnn”, ou “nononono”.

Luiza Falcão Soares Cunha

Esses ajustes são necessários e existem algumas regras e recomendações, mas o mais importante é desenvolver o olhar para que o texto não tenha espaços vazios ou manchas escuras, que dificultam a leitura.

Além dos espaços diferentes para o encontro entre curvas, retas e diagonais, alguns pares específicos de caracteres precisam de mais um tipo de ajuste. As letras com formas diagonais ou laterais abertas, como as letras V, A, W, F e T ainda precisam de uma pequena aproximação para não criarem um vazio marcante entre elas. Nesse caso, a aproximação é chamada de Kerning.

Algumas fontes preveem ligaduras entre caracteres que têm detalhes que tendem a se sobrepor quando as letras ficam lado a lado. Veja o detalhe da fonte Times New Roman:

Etapa 3: Produção

A última etapa inclui os ajustes e a geração de arquivos digitais para que os usuários possam baixar as fontes em seus computadores, instalarem e usarem em seus projetos. É importante definir o tipo de licença, se será grátis ou terá algumas restrições de uso.

Existem vários programas que podem ser usados para a criação de fontes no formato True Type Font (TTF), que é o formato mais usado, tanto no sistema Windows como no Mac.

Para a produção da fonte Derramada, foi utilizado o site:

https://www.calligraphr.com

Veja outros projetos tipográficos desenvolvidos por estudantes do curso técnico em Comunicação visual, orientados pela professora Janaína Ramos. 

Cada projeto partiu da experimentação caligráfica, da variação da letra manual de cada estudante. Depois, foi escolhida uma das fontes do teste, definidos os conceitos, a pesquisa de semelhantes, elaborado o painel semântico e o desenho em papel, observando os parâmetros que seriam adotados para o desenho dos caracteres. O detalhamento da anatomia dos caracteres foi feito utilizando uma grade em papel milimetrado e papel vegetal. Depois, foram feitos testes do alfabeto em caixa-alta e caixa-baixa e desenhada toda a família tipográfica, incluindo acentuação e sinais de pontuação. Por fim, foi feita a digitalização da fonte, o redesenho em programa vetorial e a criação da fonte no modelo True Type Font (TTF).

Fonte: Astro-Regular.  Ana Vitória Amaral da Rosa
Fonte : Carolfont-Regular.   Carolina de Souza Scmitt
Fonte : IsabellaPeixer-Regular.   Isabella dos Santos Peixer
Fonte : EloisaAlves-Regular.   Eloísa Alves
Fonte : Julia Regular.  Julia Lopes
Fonte : Leo-Regular.   Leonardo Clasen

Outros projetos tipográficos, os detalhes do processo de design e as fontes para download estão disponíveis no site Tipografismo:

https://www.tipografismos.com.br/tipografia2022/

Referências

 

FALCÃO, Luiza; ARAGÃO, Isabella; COUTINHO, Solange Galvão. A estruturação de um método para a criação de fontes de texto: uma proposta direcionada ao ensino do design de tipos. Estudos em Design | Revista (online). Rio de Janeiro: v. 29 | n. 3 [2021], p. 130 – 145 | ISSN 1983-196X.

 

HENDEL, Richard. O Design do Livro. São Paulo: Ateliê Editorial. 2022.

 

SANTOS, Genilson. Design de fonte tipográfica digital inspirada na assinatura do Caribé. UFBA, 2011